Panos, tiras,
amarrações, cores, estampas, simbologia, comunicação e beleza. O turbante
poderia ser só mais um simples acessório, usado para dar um toque de beleza,
daqueles ditados pelo vai-e-vem das tendências da moda. Porém, para além dos
planejamentos e designs modistas, essa peça tem um histórico repleto de cultura
e conceitos. E é por isso que eu topei conhecer um pouquinho (sim, só um
pouquinho, porque o histórico é bem rico) do que pode significar ter um
turbante na cabeça.
Para isso, eu conversei
com duas pessoas lindas e diversas que encontraram em si leques de identidade e
ancestralidade. Mylena Oliveira, 22 anos, estudante de Dança
e integrante do Coletivo Enegrecer e Movimento Turbonde. E também Beatriz Cidreira,
20 anos, estudante de Dança. A manhã foi cheia de conversa, reflexão e amarrações.
Antes
de entrar na parte conceitual e viajar pelos motivos de um turbante na cabeça,
é válido passear um pouco pelo histórico da peça. Atualmente, mirar um turbante
é remeter logo a características negras de raízes afro. Porém, outras regiões e
culturas também já se utilizaram (e utilizam) dele. No oriente, por exemplo, seu
uso data por volta de 570DC, e na cultura islâmica era intimamente representado
como consciência espiritual. Chamado lá de kawarah, o turbante era posto na cabeça,
lugar onde decisões, filosofias e fé eram sustentadas. Já na Índia, símbolo da
fé Sirk, o turbante designava funções sociais, no caso as castas.
Na
África, o caráter cultural está intimamente ligado à religião, sociedade e
também moda. Lá o turbante completa a indumentária. Já parafraseando a Mylena,
“o turbante nasce num contexto social, cultural, religioso e artístico, porque
na África essas coisas não estão separadas”. Muitas tribos e aldeias
incorporavam o uso do turbante também para identificar postos sociais. Eles
eram utensílios de rainha, quase como uma coroa. Maiores armações, cores mais
chamativas, laços; até mesmo o tipo de amarração poderia determinar colocações
sociais.
Aqui
no Brasil, segundo a Mylena, o turbante veio na cabeça das mulheres
escravizadas. E aquelas peças que antes ostentavam postos de rainhas, ganharam
novas funções em meio aos senhores brancos aos quais as mulheres negras
serviam. Lenços eram usados para esconder seus cabelos, amarrações eram feitas
para não deixar mostrar suas identidades. Eram amas que serviam, mas não podiam
deixar-se mostrar.
Ancestralidade,
cultura e traços identitários permeiam a história do turbante no Brasil. Porém,
Mylena acredita que a popularização e adesão de uso ocorreram numa outra
pegada. “Eu acho que a expansão se dá quando algo é socializado na mídia”,
expõe. E o “boom” desse momento midiático para a peça aconteceu quando um
estilista francês aderiu ao turbante e o transformou em algo sofisticado. Eram
divas que usavam! O reconhecimento da
peça veio mais pela imagem popular de Carmem Miranda do que pela parte
étnica. A mídia consegue socializar a imagem de qualquer coisa, dar-lhe o
significado que melhor convir. Se algo era mal visto porque fazia parte da
identidade do povo negro africano, depois de passar pelo crivo dos socialmente
dominantes, então já não carregava uma conotação negativa em si, afinal estava
sendo importado da mídia francesa, norte-americana ou sofisticadamente
“gringa”.
Eis
que, após essa explanação histórica, chego no ponto principal do que idealizei
para esse texto. Seja para islâmicos, indianos,
africanos, gringos, eu ou você... Quando usamos algo, queremos representar
alguma coisa. Seguir uma ideia ou causar uma impressão: haverá sempre o desejo
– às vezes inconsciente - de atingir uma pretensão, nem que seja visual.
Então, diante de uma peça histórica repleta de significações em suas origens,
por que não pensar um pouco além do ato automático de usar?
“Eu
uso o turbante como aceitação de uma identidade, de uma ancestralidade que é
inata. Eu me reconheço como mulher negra, é importante dizer isso. E acho a
utilização do turbante um ato político de resistência”. – Mylena Olivera
A palavra da vez é
ressignificação! A Mylena mergulha na ancestralidade e reconhece o valor étnico,
mas ela deixa claro que compreende que é outro contexto histórico, outro
momento, espaço físico. Nas suas práticas diárias, o valor histórico dessa
indumentária ganhará um novo olhar. Membro do movimento Turbonde, a Mylena e
suas companheiras intentam em palestras ou oficinas mostrar a força mãe e
ancestral que pode carregar um símbolo histórico, como o turbante. É uma nova
luta, uma despertar de consciência. É um reconhecimento preciso de que
brasileiros descendem de ancestrais negros. “A gente tenta trazer isso, tanto
no uso diário quanto na ação política, colocar-se enquanto mulher negra que
luta contra o racismo, luta pela liberdade, e pelo respeito”, reafirma Mylena
relembrando a influência que mulheres do Ileaiê deixaram para os brasileiros e
a importância de validar esta contribuição.
“Uso
porque acho bonito. Mas não nego os significados, como vejo muita gente
fazendo, seria desrespeito. (...) Por isso, por mais que os turbantes sejam
ressignificados, seu significado original não pode ser negado”. – Beatriz
Cidreira
Para
Beatriz o uso define sua apreciação na beleza estética. E dentro de um mundo
contemporâneo ela comenta que a possibilidade da ressignificação é muito forte.
Tudo pode ganhar uma nova agregação de sentido. Mas Bia fala que ressignificar é
bem diferente de negar. Então, seja por resistência, por estética, afinidade...
Usar turbante hoje sustenta multiplicidade! História! Só não deveria sustentar
olhares repressores.
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| Imagem de mulheres do Ileaiê estampando as paredes do DCE da UESB de Jequié |
Existem
sim, relações opressoras com sua utilização por parte daqueles que remetem
imediatamente seu uso com a imagem de um continente historicamente visto com
preconceito. Ou ainda por clara associação com religiões africanas vistas
negativamente. Aqui vão dois contra-argumentos para essas proposições enraizadas
e ainda não desconstruídas:
1- O território africano, ou pessoas vindas de lá, não representam mau agouro. Aquelas pessoas não eram escravas, muitas até saíram de lá como rainhas e reis. Chegou a hora de dissolver esse olhar negativo de superioridade, certo?!
2- Hoje, nada propriamente delata adesão ao pé da letra. Lembram-se? Ressignificação. Se todos que usassem assessórios e indumentários delimitassem um conceito único, todos de paletó eram pastores, vestidos longos eram freiras, ou mesmo até os próprios africanos seriam puramente mulçumanos.
1- O território africano, ou pessoas vindas de lá, não representam mau agouro. Aquelas pessoas não eram escravas, muitas até saíram de lá como rainhas e reis. Chegou a hora de dissolver esse olhar negativo de superioridade, certo?!
2- Hoje, nada propriamente delata adesão ao pé da letra. Lembram-se? Ressignificação. Se todos que usassem assessórios e indumentários delimitassem um conceito único, todos de paletó eram pastores, vestidos longos eram freiras, ou mesmo até os próprios africanos seriam puramente mulçumanos.
Já
que a ideia esbarra numa interligação de significados, por que não falar de
apropriação cultural? Quando há debates rodeando lutas raciais, provavelmente
esse termo irá aparecer. Confesso, que em minha mente pulam questionamentos
para diversos argumentos que já vi rodear essa pauta. Mas afinal, o que é essa
tal apropriação?
O
que é ou não seria uma resposta muito curta, grossa e restritiva no âmbito em
que estamos embarcando. Para conduzir esta reflexão a Mylena – que ressalta
estar num processo de estudos e aprofundamento - me ajudou no entendimento
trazendo para cena duas proposições. Vamos mexer com dois sentidos. Um lado pelo qual a pessoa se encontraria: apropriar-se
de uma matriz cultural, a partir do momento em que há identificação com ela.
Mylena alega que identificação não significa isolar e extrair o resto. “É como
fazer da vida uma grande tropicália”, ela ri ao falar em diversas
referências que o movimento “comeu”. O outro lado, entretanto, traz o ponto de
divergência: Quando há uma apropriação e transferência para outro universo, sem
devidos reconhecimentos. Seria como um “roubo”, se apropriar e esconder as
origens, ou ainda diminuí-la, dando valor apenas na pós-apropriação.
Dentro
desses dois contrapontos, uma explanação da estudante me chamou a atenção. A
Mylena categorizou no lado ruim o fato de “se apropriar culturalmente, mas não
da identidade”, porém ela parou, refletiu e completou: “Não posso dizer que
isso é de todo ruim”. Sua defesa contempla a intenção de não construir restrições.
É válido tanto a luta pelo reconhecimento, quanto pela expansão do conhecimento
sobre. Se mais pessoas tem acesso, podem ter acesso também à informação. É
importante ganhar espaço para essas discussões em grandes mídias, em sites,
blogs ou materiais que atinjam meninas, meninos, brancos, pretos, quem quer
que seja.
Por
isso, se verem manchetes de moda pautar turbantes seguidos de “Saiba quem pode
usar”, vire a página, feche o site. Tanto Mylena quanto Beatriz acham que não
deve haver uma restrição de usos, nem muito menos condições físicas para tal.
“Eu acho que nada que restringe ajuda na libertação. Se o turbante a gente usa
como forma de expressar o nosso desejo de liberdade, por que vou restringir?”,
fala Mylena e completa que conhece meninas brancas que usam e tem consciência
da peça que estão aderindo. “Alô, estamos no Brasil e nenhum negro é puro,
nenhum branco é puro, somos uma mistura”, defende Beatriz, e defende ainda que
mesmo que se fosse alemã, não haveria problemas no uso, num mundo contemporâneo
em que tudo é ressignificado. Lembrando: ressignificado, não negado.
Para
fechar a amarração final do nosso turbante de reflexão, vale ressaltar o que
mais ficou em mim dessa troca de experiência com a Mylena e Bia. É importante
pensar em cultura, de modo geral. Cultura é o saber de um povo e está ligada ao
tempo. Mas cultura também é cíclica, está sempre em construção. Mylena termina
falando que conhecimento é construído a cada momento. Reflexões são feitas a
todo instante. Até nossa conversa já influencia imensamente na nossa construção
de agora em diante. Eu, Mylena, Bia, e, assim espero, vocês que leram ... Todos
iremos refletir sobre o que foi dito de uma maneira diferente. Estaremos
construindo conhecimento, e logo cultura, de múltiplas formas. O diálogo não é
estático.
“Identificação, raiz, comer
antropofagicamente e fagocitar isso. Recriar, reutilizar, reciclar. É um ciclo.
Não para.” – Mylena Oliveira.
E
é isso que queremos sempre levar: uma construção contínua do nosso pensar e do
nosso agir. E agora? Você usa/usaria Turbante? Qual conceito você colocaria na cabeça?
![]() |
| Meu novo conceito na cabeça: a valorização dos meus traços. Acho que um turbante vai ser lindo para destacar meus cachos que estão renascendo! |
Curiosidades:
- Sabia que para a cultura
Iorubá não se pode dar nós? Dar um nó num tecido em sua cabeça seria quase como
amarrar o pensamento, suas ideias.
- Muitas mulheres
usaram turbante para esconder maus tratos com o cabelo na Segunda Guerra
Mundial.
Vem
transpassar!
Os materiais para fazer
o turbante são livres e diversos assim como o ato de usá-los! Malha, retalhos,
até uma calça... Vale qualquer tipo de tecido. A Mylena deu a dica de conseguir
panos em bancas de retalhos. Caso queira comprar o tecido, os tamanhos variam a
depender do estilo que deseja utilizar. Como padrão, pode-se pedir 1,50mx0,50m.
Se for armado, aposte em maior cumprimento para a largura. Sabia que para os mais altos o próprio cabelo serve como suporte? As opções são enormes! Então, brinque e escolha cores/formatos/laços
diversos!
Para finalizar, nada
mais justo que uma pequena e rápida demonstração de beleza e identidade,
amarrações com a Mylena e a Beatriz em forma de vídeo! Vai ter tiara simples,
transpassados, armados e nós de flor!
Obrigada, meninas, pelo
papo e pelas reflexões. <3
Paula Joane









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