Das muitas experiências que cursar jornalismo nos traz, uma das melhores é o contato com as mais diferentes pessoas. Seja indo a campo para entrevistas e eventos, seja na sala de aula, conhecemos pessoas de todas as caras, cores, sorrisos e olhares. No meio dessa diversidade, acabamos por compartilhar a sala de aula com um poeta amigável e de sorriso fácil chamado Dado - nas palavras dele: "Meu nome é Dado, e o apelido é Luiz Eduardo". Dado vê poesia ao seu redor, e a compartilha com quem está à sua volta - e agora esse compartilhamento se dá também através de seus Saveiros de Papel, livro lançado no último dia 21 - não por acaso, aniversário do poeta, que assina seu trabalho como Ribeiro Pedreira. Estivemos presentes no lançamento do livro, que aconteceu na Cervejaria Mata Branca, aqui em Vitória da Conquista, onde Ribeiro Pedreira, cheio de sorrisos, autografava sua obra. Saveiros de Papel é um livro tocante, reflexivo. Cada poema mexe conosco de um modo diferente, trazendo um novo olhar sobre o mundo, as pessoas, os sentimentos...
Conversamos com Dado a
respeito de seus poemas. Ele nos conta que seu interesse inicial era por
música e surgiu ainda criança, ouvindo A Arca de Noé, disco com canções
compostas por Vinícius de Morais. A partir daí, os versos começaram a lhe
escapar da cabeça e saírem para o papel. “Certa vez escrevi uns versos bem
tolinhos, e achei o máximo aquelas bobagens...”, conta Dado, já mergulhado na
necessidade de transferir para o papel ideias que vinha à mente.
Com 37 anos e
funcionário público, Ribeiro Pedreira conta que Saveiros de Papel "é a reunião de poemas escritos
de uns oito anos pra cá". Ele
começou a pensar em publicar um livro por volta de 2010, e a concepção para cada
poema ou verso vem de pensar que tudo na
vida tem uma história por trás. Seus poemas são fruto das suas observações, vivências,
leituras... E ele afirma que nos poemas há um pouco de sua própria história,
mesmo que nas abordagens fale de situações em que ele não viveu.
Nessa mistura de
vivências, raízes e boas histórias das quais Dado é íntimo, vem uma curiosidade
sobre o título de seu livro. Nascido no recôncavo baiano, o poeta não teve a
chance de pegar o tempo em que saveiros atravessavam a Baía de Todos os Santos
para levar mantimentos do interior para a Capital. A essência do título é
encontrada no poema Breve (p. 40):
O violino galopa
na canção ligeira,
embala a pena
desliza o poema
que embarca, inerme,
num saveiro de papel
na canção ligeira,
embala a pena
desliza o poema
que embarca, inerme,
num saveiro de papel
Nele, Dado faz uma
reflexão sobre a condição dos textos - num paralelo com a função dos saveiros -
que estão fadados a seguir viagem, passar por outros olhos, receber críticas e
estar expostos sem direito a defesa. “Então pensei em ‘construir’ os meus próprios
saveiros e vê-los cumprir seus destinos diversos”, afirma.
Sobre a dificuldade de
estreantes e o mundo das publicações, Ribeiro Pedreira enfatiza a
dificuldade de se publicar livros e alega que não é um desafio enfrentado só
pela juventude. Existem pessoas com materiais bons e que não encontram suporte.
A própria demanda pela não-literatura é grande. No caso de Dado, ele foi
apresentado ao editor da Editora Mondrongo por um amigo em comum. Ele está entre os dez poetas publicados da Série Horizontes
e é o único escritor que está estreando.
Quando questionado
sobre a importância de uma literatura dita “regional”, Dado apressa-se em dizer
que não gosta muito do termo “regional”. Para ele, essa referência designaria
apenas território. "A arte e a cultura são manifestações humanas, portanto, são universais", diz. E complementa dizendo que, seja qual for o termo que quiserem empregar, sua relevância ainda é
imensa, pois ajudará na construção e reconhecimento da identidade de um
povo. Para os escritores iniciantes/poetas que já pensaram em seguir adiante e
quem sabe publicar algo, Dado recomenta a o exercício da escrita e leitura na
modalidade desejada. Ler clássicos, contemporâneos e buscar teóricos. Para a
poesia ele recomenda Octávio Paz e Ezra Pound.
Algo interessante que
observamos no papo com Dado seja o fato de que seu toque especial talvez seja o prazer misturado
com necessidade de se expressar “Preciso descarregar essas coisas
que não sei de onde vêm”, conta. Com esse ensejo, resultou Saveiros de Papel,
e outros provavelmente também venham a se materializar, pois Dado afirma que
existem outros produtos amadurecendo.
Além de Vitória da Conquista,
Ribeiro Pedreira lançou Saveiros de Papel em Santo Amaro e Salvador, nos dias
30 e 31 de Julho, respectivamente. As expectativas de Dado estavam as melhores
possíveis misturada com a ansiedade quanto à aceitabilidade do público.
Eu, Julie, já adquiri meus Saveiros de Papel com um marca-página cheio de identidade e um autógrafo carinhoso :)
Julie
Hevellyn e Paula Joane
(Fotos por Gabriela Santos)
(Fotos por Gabriela Santos)
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