Naruto é popular, fato. E apesar
de existirem vários mangás atuais melhores, não há como negar que foi esse título
acordou o gosto por animes de diversas pessoas por aí. Foi assim comigo e por
isso tenho um carinho todo pessoal. Ano passado, Tio Kishi finalizou sua obra
de 700 capítulos após 15 anos na ativa. E esse ano, ainda na ressaca do fim +
obras extras com a marca (vide novels e filmes) eis que o mangaká lança um spin-off,
Sétimo Hokage e a Primavera Escarlate, curto de dez capítulos e que deu
muito o que falar dentro do fandom desse
mangá.
Antes de qualquer coisa, não nego que nessa resenha vou misturar e deixar falar todos os meus lados, tanto de leitura, quanto de fã; aquele que curte ação e avalia roteiros, mas surta também com casal, sim!
Se havia a curiosidade em saber
mais sobre a nova geração de Konoha e ver um pouquinho do Uzumaki com o manto
de Hokage, Naruto Gaiden dá essa chance. Nessa deixa de “pós-fim”, o autor
aproveitou e deu uma resposta curta e grossa para algumas dúvidas que o final
do mangá deixou. Vemos qual destino levou alguns personagens, como a equipe
Taka, a diva Oro, Yamato e Kabuto.
O spin-off, porém, tem um foco e temática além. Sasuke e Naruto
formaram família e herdeiros, e com a nova geração veio uma pontinha de ironia
do passado. Uchiha e Uzumaki mirins têm alguns desentendimentos quanto à plena
convivência com seus pais. Naruto, um Hokage ocupado e Sasuke, um ninja
viajante que dedicou anos de sua vida para cuidar de uma missão maior. Achei
engraçado como essas imperfeições foram colocadas nas crias das famílias
principais, porque me remeteram quanto o próprio Naruto e o Sasuke já sofreram
(em seus níveis maiores) com uma ausência familiar. Por outro lado, o Kishimoto
exagerou um pouco na abordagem dessas novas imperfeições.
Eis o enredo principal: Por uma
ameaça tão perigosa quanto Kaguya era, Sasuke precisa investigar e passa anos
de sua vida fora da vila. Uchiha Sarada cresce sem a presença do pai. Sente
tanto sua falta que acumulou em si questionamentos quanto ao comprometimento e
sentimentos de sua família. É a vez do foco no clã Uchiha.
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| O Uchiha quase nunca demonstra sentimentos, mas quando faz arrebenta. " Porque você existe, Sarada...". Sasuke legitimando o amor de sua família na existência da Sarada. |
Entendo e até mesmo acho
plausível o autor decidir retratar o jeito e trazer essa percepção logo no
personagem do Sasuke. É a prova definitiva que ele finalmente carregou para si
os propósitos de Naruto e tenta retribuir para a vila. Porém, ficam aqui todos os contras que o Gaiden deixou em mim. Precisava
ser tão radical e atribuir tanto tempo para missão – que pela sua dimensão de
importância, foi pouco explicada - a um personagem que teve sua chance de
reconstrução? Eu ansiava por uma visão do Sasuke pós-redenção, do personagem
ainda pegando o jeito com as ‘coisas boas da vida’, porém os primeiros
capítulos mostram um Sasuke tão misterioso e enigmático quanto já conhecíamos.
Que o Uchiha sempre será um cara reservado, isso é um fato incontestável, mas a
distância que ele possuía com a filha - repito, nos primeiros capítulos - era algo inquietador, deixando para
Naruto representar o papel de mentor – e evangelizador rs – em inúmeras partes.
Com a deixa da distância do Uchiha,
o autor pegou essa sementinha para cultivar a justificativa para um dilema que
rondava alguns fãs. Sarada tem um óculos, e por isso ela não seria filha da
Karin? Kishimoto encaminha o Gaiden para responder essa dúvida tão banal. Se
ele realmente queria apagar as dúvidas que rondavam a família de Sasuke,
existiam outros motivos bem mais leves. Convenhamos, o autor preferiu criar um
grande drama mexicano, com direito até a exame de DNA ratinho approves.
Todas as minhas queixas são sobre as prioridades e destaque que o Masashi quis dar. Sem
falar na falta de planejamento para algumas questões levantadas no próprio
Gaiden e que ficaram mal respondidas. Vocês se sentiram satisfeitos com uma
resposta para todas as verdades que Sarada jogou na cara do Sasuke? Ou sobre
essa missão ultra-secreta capaz até de interromper uma comunicação com a
família por anos e anos? Ficaram muito mais “suposições” no ar do que certezas.
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| Mamakura e sua filha Sarada |
O Gaiden, entretanto, não foi
feito só de contras, e apesar deles, teve muitos aspectos positivos que valeram a pena. Sinceramente, acho que só conseguir
sentir o peso da mensagem dessa saga nos capítulos finais. Antes eu achava que
a mensagem principal estaria focada no estilo ninja, pelo qual a Sarada se
questiona no início. Acabaria com a pequena Uchiha entendendo os motivos do
Sasuke e de seus sacrifícios e do significado dessa ocupação para a vila. Ainda
que no fim fique subentendido que ela compreendeu, o foco não foi esse. Se a
premissa era o questionamento da familiaridade da Sarada, Kishimoto pegou esse
drama e trouxe uma mensagem bem bonita: A relação de Genes x Sentimentos.
Para embasar essa discussão, os
vilões, clones reais com Sharingan, traziam o ideal de guerra como base da
evolução humana, e só os genes fortes garantiriam a permanência dos melhores. O
resto era descartável. Em contrapartida, vinha a relação materna, de biologia “duvidosa”
de Sakura e Sarada. Convenhamos, de todas as intrigas e enredo, a relação
SakuSara foi o pico desse spin-off. O
laço das duas é consistente, amoroso, cúmplice. Quando a Sarada reflete sobre
todos os cuidados, conexões e sentimento com a mãe, a pergunta sobre a biologia
verdadeira, passa a não ter tanta importância. Antes de qualquer ligação
sanguínea, Sakura e Sarada tinha um laço bem mais forte que não poderia ser
descartável: a ligação promovida pelo amor.
Nessa pegada, eu achei fantástico
o Tio Kishi trazer para cena uma referência sólida da relação dos Uchihas.
Aquele toque na testa passado do Itachi até chegar a Sarada.
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| O legado do "poke" |
Aquele "poke" é um
gesto cheio de significados. E uma coisa que eu tenho que valorizar no
Kishimoto é a preferência dele por atitudes simples, mas que carregam história.
Um abraço, um beijo pode ter sua importância, mas para alguns personagens
outros meios de expressão valem até mais que o "costumeiro". Para a
história Uchiha, o toquinho é expressão máxima do amor. E depois desse Gaiden,
pude captar mais significações vindas desse ato.
"Fica para a próxima". O
gesto acompanhado dessa frase delata um intermédio entre amor e impossibilidade
momentânea. A ideia de "próxima vez" podia ser uma frustração para o
receptor. Era algo como "deixa para depois". E nisso podia até criar
uma ideia de "nunca vai acontecer", uma ideia de adiar. Porém, o real
sentimento depositado ali nunca foi esquecido ou deixado para trás. Muito pelo
contrário, o amor Uchiha foi sendo passado adiante. Começou com a promessa do
Itachi e agora está na Sarada. Resistiu, aconteceu. Não é um sentimento de
frustração. No fim, é um sentimento real que vive neles. Amei essa herança
ainda mais, assim como amei a homenagem a algo que começou com Itachi.
Outra coisa interessante foi que
com a confirmação da Sakura ser realmente a mãe, apaga qualquer intenção de
unir sangue Uzumaki e Uchiha só para criar uma Sarada poderosíssima. Ela não
precisa dos melhores genes para ser resistente. Foi uma resposta tanto para o
vilão Shin, quanto para muitos que desejavam que “poder” sobrepujasse os “laços”.
E para completar os acertos,
tenho que frisar a magnífica ideia de colocar Sarada despertando o sharingan
através de uma emoção forte como o amor. É o início de uma nova roupagem para
os Uchihas que carregaram tantas tragédias. Se esse é um clã que ama demais, a
pequena herdeira representou um valioso novo legado para seu sobrenome.
De referência o Gaiden está cheio! Além do "poke", muitas
outras tiradas apareceram por entre as páginas do spin-off. Foi divertido ouvir
Naruto contando como ele e o Sasuke eram quando Genins, a Sarada incorporando o
Sasuke querendo abandonar a vila e a clássica rivalidade, indicada agora no
Boruto e na Sarada, só que com personalidades trocadas. Foi uma nostalgia gostosa ver o Boruto reclamando
e a Sarada herdando a vontade de ser a Hokage.
Antes tarde do que nunca, Kishi
conseguiu resgatar a proposta do novo Sasuke e deixar que o apreciássemos.
Pensar em todas as sombras que rodearam esse menino, em toda sua relutância por
criar laço, e agora ver que, enfim, ele tem pessoas pela qual se apegar e
objetivo pelo qual lutar, é lindo. Sasuke abraçado sua filha, lutando pela
vila, gritando para o mundo shinobi - e para Tio Orochi das Cobras -
"minha esposa". Quem imaginaria isso tudo? Sempre gostei de tipo de
personagens que conseguem encontrar sua redenção.
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| Um doloroso retrato do passado, um esperançoso retrato do futuro |
" O que estava refletido em seus olhos era a coisa verdadeira. Amor".
Irônico, não? Que um óculos que
tanto provocou rebuliço e dúvidas, é o objeto que reflete os sentimentos
verdadeiros de Sasuke, Sakura e Sarada. Eles são uma família sim, Sakura é a
mama biológica sim, e o resto é só uma confusão que não tem importância no meio
do verdadeiro objetivo.
Apesar de todos os baixos e todas
as incongruências, achei válida a existência desse curto mangá. E mais válido
ainda pela oportunidade de conhecer Sarada Uchiha. Essa personagem conseguiu me
conquistar numa escala grande. Torço muito para que essa Uchiha mulher brilhe muito.
Fisicamente parecida com o Sasuke, com a personalidade forte e dom do pai.
Carisma, carinho, força, é caricata como a mãe. E ainda recebeu a evangelização
e influência direta de Naruto. Ela é uma síntese do Time 7.
E para fechar, findando com o porta-retrato,
lembrei de um diálogo do Uchiha com Kakashi sobre os sentimentos da Sakura.
Sasuke tenta rechaçar as palavras dela e de Kakshi, mas em seu interior ele
pensa na foto de sua família e completa: "Tudo isso é passado agora”. Hn.
Era passado para alguém que necessitava de laços, mas afastava-os. Um sentimento
do passado que resistiu, se reinventou e virou um futuro. Futuro desajeitado,
com desencontros e imperfeições, mas ainda assim permanece encontrando seu
terreno firme em momentos valiosos.
Ponto Seguimento: Há diversas traduções para as linhas. Algumas
menos confiáveis (como infelizmente, as que usei nas fotos). Afinal, pense aí traduzir do japonês para o inglês e depois
português. Muita coisa se perde. É sempre legal buscar outras fontes. PS2: Muito se fala que o Naruto Gaiden é um prólogo para o filme do Boruto. Pode ser que algumas brechas, principalmente envolvendo a missão do Sasuke, sejam respondidas no longa (sem certezas, mas vai que...).
Observação: As fotos foram impressas e meramente ilustrativas. O
Gaiden ainda não foi lançado no Brasil (não sabemos quando será. Enquanto isso,
aproveitem os 72 volumes e databook lançados pela Panini - que aqui está
atrasado, mas ok.).
Nota Final: 8
Paula Joane






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